O mercado de licenciamento está passando por uma transformação importante. Durante muitos anos, identificar oportunidades significava acompanhar quais filmes, séries ou personagens estavam em evidência. Hoje, essa análise já não é suficiente.
Dados divulgados pela Toy Association em parceria com a Circana mostram que os brinquedos licenciados cresceram 15% globalmente em 2025 e já representam 37% do mercado mundial de brinquedos. Mais do que um crescimento de vendas, o dado revela uma mudança no comportamento do consumidor e na forma como as propriedades intelectuais geram valor.
Popularidade continua sendo importante, mas já não é o principal fator de sucesso. Comunidade, recorrência de compra, colecionabilidade, nostalgia e presença em múltiplas plataformas passaram a ter influência direta no desempenho das licenças.
Por isso, mais do que observar quais personagens estão em alta, fabricantes, varejistas e licenciadores precisam compreender quais movimentos estão moldando a próxima geração de propriedades intelectuais. Algumas tendências já estão ganhando força e podem ajudar a antecipar oportunidades para os próximos 12 meses.
1. Ecossistemas de marca continuam mais fortes que produtos isolados
Uma das características mais marcantes das propriedades intelectuais de maior sucesso atualmente é sua capacidade de funcionar como ecossistemas completos. O exemplo mais evidente é Pokémon. Segundo levantamento da Circana, a franquia continua entre as propriedades mais relevantes da indústria global de brinquedos, mesmo décadas após seu lançamento.
O aspecto mais interessante não está apenas no volume de vendas, mas na diversidade de pontos de contato construídos ao redor da marca. Jogos, animações, cartas colecionáveis, aplicativos, eventos presenciais, brinquedos e produtos licenciados trabalham de forma integrada para manter o consumidor conectado ao universo da franquia.
Esse modelo reduz a dependência de lançamentos pontuais e fortalece a recorrência de consumo ao longo do tempo. Para o mercado, a principal lição é que propriedades intelectuais fortes não dependem exclusivamente de um produto de sucesso. Elas criam universos capazes de acompanhar o consumidor em diferentes momentos e plataformas.
2. Personagens versáteis ganham espaço em múltiplas categorias
Nem toda licença de sucesso depende de narrativas complexas ou de novos lançamentos frequentes. O crescimento recente de Stitch demonstra como a versatilidade pode se tornar um diferencial competitivo relevante. Segundo análise que publicamos, produtos licenciados de Lilo & Stitch estão entre os destaques recentes do varejo brasileiro.
O personagem consegue transitar com facilidade por diferentes categorias. Ele funciona como brinquedo, pelúcia, item de decoração, acessório de moda, produto colecionável e presenteável. Essa flexibilidade amplia o potencial de monetização da propriedade e reduz sua dependência de um único público ou canal de vendas.
À medida que o mercado se torna mais competitivo, cresce a importância de personagens capazes de gerar valor em diferentes categorias simultaneamente.
3. A nostalgia continua impulsionando o crescimento do público adulto
Uma das transformações mais relevantes da indústria nos últimos anos foi a consolidação do público adulto como um dos principais consumidores de produtos ligados ao entretenimento. A chegada de Toy Story 5 reforça um movimento que já vinha ganhando força globalmente: a valorização da nostalgia como motor de consumo.
Consumidores adultos possuem maior poder aquisitivo, maior disposição para investir em itens colecionáveis e uma conexão emocional profunda com personagens que fizeram parte de sua infância. Esse fenômeno ajuda a explicar o crescimento contínuo do público conhecido como kidult, formado por adultos que consomem brinquedos, colecionáveis e produtos relacionados à cultura pop.
Mais do que uma tendência de comportamento, a nostalgia se tornou um ativo estratégico para propriedades intelectuais. Franquias capazes de conectar diferentes gerações conseguem ampliar sua relevância e criar oportunidades adicionais de licenciamento.
4. Comunidades digitais estão criando as próximas grandes licenças
Durante muito tempo, o potencial de uma propriedade intelectual era medido principalmente por sua audiência na televisão ou no cinema. Hoje, esse cenário mudou. Minecraft é um dos melhores exemplos dessa transformação. Nascido em um ambiente digital, o universo da franquia expandiu sua presença para brinquedos, livros, roupas, colecionáveis e diversas outras categorias de produtos.
O sucesso não está apenas na marca, mas na comunidade construída ao redor dela. As novas gerações transitam naturalmente entre experiências digitais e físicas. Elas descobrem personagens em jogos, acompanham criadores de conteúdo, compartilham experiências nas redes sociais e consomem produtos relacionados a esses universos de forma integrada.
Para fabricantes e licenciadores, isso significa que indicadores tradicionais de audiência precisam ser complementados por métricas de engajamento, participação comunitária e relevância digital. As próximas grandes licenças provavelmente nascerão de comunidades fortes antes mesmo de chegarem às prateleiras.
5. Esportes se consolidam como propriedades licenciáveis
Outra tendência que vem ganhando força é a expansão das licenças ligadas ao universo esportivo. Neste artigo, apresentamos produtos relacionados à Fórmula 1 que estão entre os destaques recentes do mercado brasileiro, demonstrando que o potencial de licenciamento vai muito além das franquias tradicionais de entretenimento.
O esporte reúne atributos extremamente valiosos para o desenvolvimento de produtos. Possui comunidades engajadas, calendário constante de ativações, presença digital intensa e narrativas que se renovam continuamente. Além disso, cria vínculos emocionais profundos entre consumidores, equipes, atletas e competições.
Para empresas que buscam oportunidades de crescimento, o universo esportivo tende a se consolidar como uma das áreas mais promissoras dos próximos anos.
6. Colecionabilidade e escassez estão se tornando modelos de negócio
Poucos fenômenos recentes chamaram tanta atenção da indústria global quanto a ascensão da Pop Mart e de personagens como Labubu. Segundo reportagem da Reuters, a empresa vem sendo observada por grandes players globais pela forma como transformou personagens autorais em ativos culturais de alto valor.
O aspecto mais relevante desse movimento não está necessariamente no design dos personagens, mas na combinação entre blind boxes, escassez controlada, lançamentos frequentes, colecionabilidade e compartilhamento nas redes sociais. Esse modelo cria um ciclo contínuo de expectativa e recompra. O consumidor não adquire apenas um produto específico. Ele passa a buscar a coleção completa, novas edições e itens mais raros.
Na prática, isso transforma a colecionabilidade em um mecanismo de retenção e fidelização. Mais do que uma tendência estética, esse movimento representa uma mudança importante na forma como o mercado constrói valor ao redor de uma propriedade intelectual.
O que essas tendências revelam sobre o futuro do licenciamento
Embora cada uma dessas tendências siga caminhos diferentes, existe um padrão comum entre elas. As propriedades intelectuais que mais crescem atualmente não dependem apenas de visibilidade ou reconhecimento de marca. Elas criam comunidades, estimulam recorrência, ampliam sua presença em múltiplos canais e conseguem permanecer relevantes mesmo fora dos períodos de lançamento.
Em outras palavras, o valor de uma licença está cada vez menos associado ao personagem em si e cada vez mais relacionado ao ecossistema construído ao seu redor. Por isso, avaliar o potencial de uma propriedade intelectual exige uma visão mais ampla do que simplesmente identificar qual personagem está em alta no momento.
A questão estratégica passa a ser entender quais universos possuem capacidade de gerar relacionamento contínuo, expansão para novas categorias e engajamento de longo prazo.
Os próximos 12 meses certamente trarão novos personagens, franquias e oportunidades. No entanto, observando os movimentos que já estão ganhando força no mercado, tudo indica que as licenças mais valiosas continuarão sendo aquelas capazes de transformar consumidores em comunidades, produtos em experiências recorrentes e marcas em plataformas de crescimento sustentável.
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