Existe uma mudança acontecendo no mercado de brinquedos. Enquanto a indústria continua tratando o autismo principalmente como uma pauta infantil e terapêutica, o comportamento de consumo já começou a apontar para outra direção.
Consumidores neurodivergentes estão presentes em mercados de colecionáveis, cultura pop, brinquedos sensoriais, produtos de conforto emocional, hobbies repetitivos e até no crescimento do consumo adulto de brinquedos. Mas boa parte das marcas ainda não enxerga esse público de maneira estratégica.
E talvez isso aconteça porque o setor ainda parte de uma lógica simplificada demais: a ideia de que existe um único perfil autista.
Segundo a National Autistic Society, pessoas dentro do espectro podem apresentar relações completamente diferentes com:
- sons
- luzes
- toque
- movimento
- repetição
- previsibilidade
- intensidade sensorial
Algumas pessoas buscam estímulos intensos. Outras evitam qualquer excesso sensorial. Algumas se conectam profundamente com repetição e organização. E outras preferem movimento, construção ou interação física.
Isso muda completamente a maneira como a indústria deveria pensar no desenvolvimento do produto.
Qual o tamanho do público TEA?
A dimensão desse público começa a aparecer de forma mais clara nos dados recentes.
Segundo o IBGE, o Brasil possui oficialmente 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA, o equivalente a 1,2% da população. Mas o dado mais importante talvez seja outro.
Especialistas discutem que o número real pode ser significativamente maior, principalmente entre adultos e mulheres historicamente subdiagnosticados. A análise publicada pela Medicina S/A mostra que o avanço dos diagnósticos também começa a ampliar a discussão econômica e de mercado em torno da neurodivergência.
Na prática, isso significa que existe uma parcela crescente de consumidores neurodivergentes participando de mercados ligados a:
- brinquedos
- colecionáveis
- fandoms
- cultura geek
- produtos táteis
- entretenimento
- nostalgia
- conforto emocional
E esse ponto começa a se conectar diretamente com uma tendência que já vem transformando o setor: o crescimento do público kidult.
O erro de criar “brinquedos para autismo”
Talvez um dos maiores erros da indústria seja tentar resolver o tema criando uma categoria genérica de “brinquedos para autismo”. O espectro não funciona dessa forma.
Os estudos sobre processamento sensorial mostram justamente o contrário: diferentes perfis respondem de maneiras completamente diferentes aos estímulos.
Uma pesquisa publicada na PubMed Central reforça que preferências sensoriais variam bastante conforme o perfil comportamental e sensorial da pessoa.
Isso significa que o desenvolvimento de produto precisa deixar de pensar apenas em diagnóstico e começar a pensar em:
- perfil sensorial
- função emocional do brinquedo
- previsibilidade
- intensidade de estímulo
- modularidade
- controle da experiência
Essa mudança parece pequena, mas altera completamente a lógica de criação. O foco deixa de ser “produto terapêutico” e passa a ser experiência de uso.
O brinquedo também pode funcionar como regulação emocional
Esse talvez seja um dos pontos menos explorados pela indústria. Para muitos consumidores neurodivergentes, brinquedos não funcionam apenas como entretenimento. Eles também podem ajudar em:
- autorregulação
- redução de ansiedade
- foco
- repetição segura
- organização cognitiva
- conforto emocional
- previsibilidade
Segundo a Autism Speaks, brinquedos sensoriais podem ajudar no gerenciamento de sobrecarga sensorial e regulação emocional.
Mas os estudos mais recentes mostram algo ainda mais interessante: o controle do estímulo parece ser mais importante do que o estímulo em si.
Uma pesquisa publicada no Autism Journal mostrou que crianças autistas apresentaram maior atenção e menos comportamentos repetitivos quando conseguiam controlar os estímulos do ambiente multissensorial.
Esse ponto traz implicações importantes para design de produto.
Talvez o futuro dos brinquedos sensoriais esteja menos em criar experiências extremamente estimulantes e mais em criar experiências:
- ajustáveis
- previsíveis
- configuráveis
- modulares
- menos agressivas
Na prática:
- som opcional pode funcionar melhor do que som automático
- luz ajustável pode gerar mais conforto do que luz intensa
- texturas diferentes podem ampliar acessibilidade
- repetição previsível pode gerar mais conexão do que excesso de interação
A relação entre neurodivergência e o mercado kidult
O crescimento do mercado kidult ajuda a ampliar ainda mais essa discussão. Nos últimos anos, ganharam força entre consumidores adultos categorias como:
- LEGO
- puzzles
- miniaturas
- modelismo
- colecionáveis
- figuras de cultura pop
- brinquedos de construção
Boa parte desse crescimento costuma ser explicada por nostalgia, escapismo e fandom. Mas existe outra camada importante nessa conversa: muitos consumidores neurodivergentes demonstram forte conexão com:
- sistemas
- categorização
- organização
- repetição
- hiperfocos
- coleções
- padrões visuais
O interessante é que a indústria já percebeu o crescimento dessas categorias, mas ainda raramente conecta esse comportamento ao público neurodivergente.
Isso abre espaço para:
- produtos modulares
- brinquedos altamente organizáveis
- experiências táteis
- linhas colecionáveis com forte identidade visual
- produtos ligados a conforto emocional
- experiências previsíveis
O brinquedo passa a ocupar também um espaço de lifestyle e autorregulação.
Inclusão começa a entrar no mainstream
Os movimentos recentes de grandes marcas ajudam a mostrar essa transformação. A Mattel lançou recentemente uma Barbie autista incorporando elementos como:
- fone antirruído
- item tátil
- roupas adaptadas
- comunicação AAC
Segundo o The Guardian, a proposta foi ampliar a representação e reconhecimento dentro do brinquedo mainstream.
Já a LEGO começou a incorporar símbolos ligados a deficiências invisíveis em personagens, como mostrou reportagem do The Guardian.
O mais importante aqui não é apenas inclusão. É perceber que neurodivergência começa a entrar também nas discussões de:
- identidade
- pertencimento
- autoexpressão
- reconhecimento
- lifestyle
O que a indústria pode começar a aprender com esse movimento
A tendência mais relevante talvez seja esta: o consumidor neurodivergente não representa apenas uma pauta clínica.
Ele também representa comportamento de consumo.
E isso muda a maneira como a indústria pode pensar:
- desenvolvimento de produto
- experiência de varejo
- comunicação
- segmentação
- design sensorial
- construção de marca
Talvez a maior oportunidade não esteja em criar uma categoria isolada de “brinquedos para autismo”.
Ela pode estar em desenvolver produtos capazes de atender diferentes formas de percepção, interação e experiência.
Porque no fim, diferentes perfis dentro do espectro já fazem parte do mercado de brinquedos há muito tempo.
A diferença é que agora a indústria começa, finalmente, a perceber isso.
