Durante décadas, a indústria de brinquedos olhou principalmente para o consumidor final. Pais, crianças, varejo e datas sazonais sempre estiveram no centro das estratégias do setor.
Mas existe uma mudança começando a acontecer em paralelo e que ainda é pouco discutida pelo mercado: as cidades podem se tornar um novo cliente para a indústria do brincar.
Isso porque o brincar começa a entrar em pautas que vão muito além do entretenimento. Hoje, ele aparece conectado a:
- urbanismo
- saúde pública
- inclusão
- desenvolvimento infantil
- permanência urbana
- convivência social
- sustentabilidade
- qualidade de vida
O avanço recente do projeto de lei em Sorocaba para adaptação de parques públicos para pessoas com TEA ajuda a ilustrar esse movimento. Segundo o Jornal Cruzeiro do Sul, a proposta prevê espaços mais acessíveis sensorialmente e distribuídos pela cidade.
O ponto mais importante aqui é perceber que o brincar começa a ser tratado como infraestrutura urbana.
O brincar entrou na agenda global das cidades
Esse movimento não está acontecendo apenas em Sorocaba.
Em 2026, OMS, UNICEF e UN-Habitat lançaram o guia global “SPACES”, voltado para criação de ambientes urbanos seguros, inclusivos e centrados nas crianças. Segundo a OMS, o documento busca ajudar governos e urbanistas a desenvolver espaços públicos infantis como parte do planejamento urbano.
O próprio guia reforça que brincar não deve ficar restrito apenas a playgrounds tradicionais. A proposta é incorporar experiências infantis em:
- ruas
- praças
- bairros
- parques
- áreas escolares
- equipamentos públicos
- espaços comunitários
O documento completo, publicado pela WHO, UNICEF e UN-Habitat, fala diretamente sobre:
- saúde urbana
- acessibilidade
- segurança
- inclusão
- desenvolvimento infantil
- sustentabilidade
- planejamento territorial
Isso muda bastante a lógica de mercado.
O brincar deixa de ser visto apenas como consumo infantil e passa a fazer parte da discussão sobre desenvolvimento urbano e qualidade de vida.
As cidades começam a disputar o papel de “ambiente do brincar”
Existe uma transformação importante acontecendo. Se antes, a experiência do brincar era concentrada principalmente em:
- casa
- escola
- shopping
- brinquedoteca
- parque privado
Agora, parte dessa experiência começa a migrar novamente para o espaço urbano.
E isso acontece porque cidades perceberam que ambientes voltados para crianças ajudam a melhorar:
- convivência
- permanência em espaços públicos
- segurança urbana
- vínculo comunitário
- saúde mental
- uso dos bairros
- ocupação de áreas verdes
Segundo a iniciativa global Child Friendly Cities, da UNICEF, cidades amigáveis para crianças já existem em mais de 40 países.
A proposta envolve transformar municípios em ambientes mais preparados para:
- brincar
- circular
- socializar
- conviver
- aprender
O ponto interessante é que isso gera impacto econômico.
Quando uma cidade investe em experiências urbanas para famílias, ela também movimenta:
- mobiliário urbano
- arquitetura
- parques
- entretenimento
- equipamentos públicos
- tecnologia urbana
- experiências interativas
- fornecedores especializados
Ou seja:
o brincar começa a criar demanda.
O consumidor final continua importante, mas não está mais sozinho
A indústria tradicionalmente pensa em perguntas como:
- o que as crianças querem?
- quais personagens estão em alta?
- quais tendências vendem mais?
- quais categorias crescem?
Mas uma nova pergunta começa a surgir: o que as cidades precisam para se tornarem mais amigáveis para crianças e famílias?
Isso muda completamente o tipo de oportunidade de mercado.
Porque agora entram em cena novos compradores e influenciadores:
- prefeituras
- secretarias de urbanismo
- secretarias de educação
- projetos de inclusão
- incorporadoras
- PPPs
- operadores urbanos
- empresas de mobiliário
- arquitetos
- urbanistas
Na prática, isso cria novas possibilidades para a indústria:
- playgrounds inclusivos
- estruturas sensoriais
- brinquedos urbanos
- experiências públicas interativas
- mobiliário lúdico
- ativações urbanas
- licenciamento aplicado a espaços
- parques temáticos públicos
- instalações infantis permanentes
O mercado deixa de depender apenas do varejo tradicional.
Inclusão acelera esse movimento
A pauta da neurodivergência ajuda a acelerar essa transformação.
Hoje, cidades e espaços públicos começam a discutir:
- acessibilidade sensorial
- conforto acústico
- previsibilidade espacial
- inclusão cognitiva
- segurança emocional
Segundo estudo publicado na ResearchGate, playgrounds inclusivos para crianças autistas exigem planejamento muito mais complexo do que apenas adaptação física.
Isso cria uma nova camada de especialização para o mercado.
Não basta mais instalar brinquedos.
Os espaços começam a exigir:
- design sensorial
- organização de fluxo
- experiências reguladas
- integração social
- conforto ambiental
- áreas de descompressão
E isso amplia as possibilidades para empresas que atuam entre brinquedo, arquitetura, urbanismo e experiência.
O espaço urbano também virou ferramenta de posicionamento das cidades
Existe outro ponto estratégico importante: cidades começaram a perceber que ambientes amigáveis para famílias ajudam no próprio posicionamento urbano.
Segundo a UNICEF, cidades reconhecidas como “Child Friendly Cities” utilizam essa agenda para fortalecer:
- desenvolvimento urbano sustentável
- atração de famílias
- bem-estar social
- participação comunitária
- reputação da cidade
Na prática, o brincar passa a funcionar também como:
- política pública
- branding territorial
- diferenciação urbana
- valorização imobiliária
- ocupação inteligente do espaço público
Isso ajuda a explicar por que cidades como Barcelona, Paris e Houston vêm investindo em experiências urbanas mais voltadas para a convivência, permanência e interação infantil.
Segundo análise publicada pelo Financial Times, urbanistas têm defendido que cidades precisam incorporar o brincar em toda a estrutura urbana e não apenas em playgrounds isolados.
A discussão começa a sair do entretenimento e entra em planejamento de cidade.
O mercado do brincar pode começar a crescer fora das lojas
Talvez essa seja uma das leituras mais importantes para a indústria agora.
Durante muito tempo, crescimento do setor esteve associado principalmente a:
- lançamento de produtos
- licenciamento
- personagens
- varejo
- tecnologia
- consumo doméstico
Mas existe uma nova camada de mercado surgindo.
O brincar começa a ocupar espaço em:
- urbanismo
- políticas públicas
- sustentabilidade urbana
- infraestrutura social
- inclusão
- planejamento territorial
Isso não significa que o produto físico perdeu força.
Mas significa que parte do crescimento pode começar a acontecer também em torno de:
- experiências urbanas
- espaços públicos
- cidades inteligentes
- convivência
- mobiliário interativo
- parques sensoriais
- estruturas permanentes
O mais interessante é que esse movimento ainda parece subexplorado pela indústria de brinquedos.
Enquanto grande parte do mercado continua olhando apenas para comportamento de consumo infantil, uma nova oportunidade pode estar surgindo do lado de fora das lojas.
Quando o brincar vira pauta de cidade, o mercado também muda
Talvez uma das mudanças mais relevantes dos próximos anos seja justamente essa: o brincar pode deixar de ser tratado apenas como categoria de consumo e passar a ser visto como parte da infraestrutura das cidades.
Quando governos, urbanistas e organizações internacionais começam a discutir espaços infantis como tema estratégico, o mercado também muda.
O consumidor final continua importante. Mas ele talvez não seja mais o único centro da conversa.
Porque, cada vez mais, cidades também começam a disputar o papel de plataforma do brincar.
