Durante muito tempo, entender o lojista era relativamente simples. Bastava pensar em alguém focado em giro, negociação com fornecedores e preço competitivo. Esse modelo ainda existe, mas ele já não explica o comportamento atual de quem está na ponta do varejo.
O que a Abrin mostrou na última feira, que aconteceu em março de 2026, é que o lojista mudou de papel. Ele deixou de ser apenas um intermediário entre indústria e consumidor e passou a atuar como um agente estratégico dentro da cadeia. Neste artigo, apresentamos que o varejo infantil caminha para um modelo mais integrado, orientado por dados e com maior protagonismo na decisão de sortimento e comunicação.
Para quem vende para esse lojista, seja indústria, distribuidor ou serviço, isso muda completamente o jogo.
O lojista não compra mais produto, ele compra decisão
Uma das principais mudanças está na forma como o lojista toma decisões. Antes, muitas compras eram baseadas em histórico, relacionamento com fornecedor ou feeling de mercado. Hoje, isso não sustenta mais a operação.
A Abrin aponta que o varejo está cada vez mais orientado por dados e desempenho, o que se conecta diretamente com tendências globais apontadas pela NRF, em que o uso de dados e inteligência artificial passa a guiar decisões de sortimento, precificação e experiência.
Na prática, isso significa que o lojista:
- avalia melhor o risco de cada produto
- compara performance entre categorias
- busca previsibilidade de venda
- e questiona mais profundamente o fornecedor
Implicação estratégica:
Se você ainda vende baseado apenas em argumento de produto ou novidade, você está competindo em desvantagem.
Aplicação prática:
Estruture sua oferta com base em lógica de decisão, não só em atributos. Em vez de “esse produto é lançamento”, o argumento passa a ser “esse produto performa melhor em contextos X, com ticket médio Y e reposição Z”.
Curadoria virou diferencial competitivo
No setor de brinquedos, essa mudança é ainda mais evidente. O novo lojista é visto como alguém que atua como curador e tradutor do brincar, ajudando famílias a entenderem o valor dos produtos. Aprofundamos esse tema neste artigo.
Isso altera completamente o papel da loja.
O ponto de venda deixa de ser apenas exposição e passa a ser um espaço de mediação. O lojista precisa explicar, contextualizar e orientar a escolha.
Implicação estratégica:
Produtos que não comunicam valor rapidamente perdem espaço. Portfólio não é mais só variedade, é clareza de proposta.
Aplicação prática:
Ao vender para o lojista, ajude ele a vender para o cliente final. Isso inclui:
- narrativa de uso do produto
- indicação de faixa etária clara
- benefício traduzido em linguagem simples
- contexto de consumo
Se o lojista precisa “inventar” como vender seu produto, a chance de ele não priorizar sua marca aumenta.
O portfólio precisa conversar com múltiplos públicos
Outro ponto relevante é a ampliação do público consumidor. O mercado de brinquedos deixou de ser exclusivamente infantil.
Há um crescimento de categorias como colecionáveis, cartas e produtos licenciados, impulsionados também por adultos. Além disso, segundo a Mercado & Consumo, os brinquedos licenciados já representam uma fatia significativa do mercado brasileiro.
Isso muda a lógica de compra.
O lojista passa a pensar em diferentes motivações de consumo:
- presente
- entretenimento
- coleção
- nostalgia
- identidade
Implicação estratégica:
Segmentação deixa de ser demográfica e passa a ser comportamental.
Aplicação prática:
Reorganize sua oferta não só por categoria, mas por contexto de consumo. Por exemplo:
- produtos para presente rápido
- produtos para colecionadores
- produtos educativos
- produtos de experiência em família
Isso facilita a tomada de decisão do lojista e aumenta a clareza do mix.
Omnichannel deixou de ser diferencial e virou base
O novo lojista não separa mais físico e digital. Segundo o Sebrae, o omnichannel consiste na integração dos canais para oferecer uma experiência fluida ao consumidor.
Isso se reflete na necessidade de integrar loja física, redes sociais, WhatsApp e e-commerce e impacta diretamente como o lojista escolhe produtos.
Ele passa a priorizar itens que:
- funcionam bem em vitrine e online
- são fáceis de demonstrar em vídeo
- têm apelo visual imediato
- geram conversa
Implicação estratégica:
Seu produto não compete só na prateleira, ele compete no feed.
Aplicação prática:
Desenvolva materiais que ajudem o lojista a vender em múltiplos canais:
- vídeos curtos de demonstração
- fotos pensadas para social
- argumentos rápidos para WhatsApp
- gatilhos de compra claros
Se seu produto não performa no digital, ele perde prioridade no físico também.
Conteúdo passou a influenciar o sortimento
Plataformas como YouTube e TikTok influenciam diretamente a descoberta de produtos infantis. Isso gera um efeito importante: o lojista começa a comprar já pensando em demanda gerada por conteúdo.
Ou seja, o produto não nasce mais só na indústria. Ele nasce também na cultura.
Implicação estratégica:
Marketing e venda deixaram de ser etapas separadas.
Aplicação prática:
Ao estruturar sua estratégia, considere:
- quais produtos têm potencial de viralização
- quais já estão sendo impulsionados por creators
- quais têm narrativa visual forte
E mais importante: leve isso pronto para o lojista.
Em vez de apenas apresentar o produto, apresente o contexto de demanda.
Equilíbrio entre giro e valor virou competência central
O mercado brasileiro ainda é sensível a preço. Neste artigo, explicamos como grande parte dos brinquedos vendidos está concentrada em faixas acessíveis.
Ao mesmo tempo, categorias com maior valor percebido, como licenciados e colecionáveis, crescem e aumentam ticket médio.
Isso cria um desafio para o lojista.
Ele precisa equilibrar:
- produtos de alto giro
- produtos de maior margem
- produtos de apelo emocional
Implicação estratégica:
Mix deixou de ser uma lista de produtos e virou uma estratégia de rentabilidade.
Aplicação prática:
Se você vende para o varejo, ajude o lojista a construir esse equilíbrio.
Não apresente produtos isolados. Apresente combinações que façam sentido para o negócio dele.
Por exemplo:
- produtos de entrada para gerar fluxo
- produtos intermediários para conversão
- produtos premium para margem
Isso posiciona você como parceiro estratégico, não só fornecedor.
O novo lojista exige mais, mas também abre mais espaço
Hoje, o varejo é mais competitivo, segmentado e exigente. Mas essa exigência não é um problema. Ela é uma oportunidade, quanto mais complexo o ambiente, mais o lojista precisa de apoio.
E é aqui que muitas empresas ainda erram.
Elas continuam vendendo produto quando deveriam estar vendendo estrutura de decisão.
Como transformar isso em estratégia
Se existe uma mudança central no perfil do lojista, ela não está apenas no comportamento dele, mas na expectativa que ele passa a ter dos seus parceiros.
Ele não quer mais só abastecer a loja. Ele quer vender melhor, com mais previsibilidade e menos risco.
Isso significa que as empresas que vão crescer nesse contexto não são necessariamente as que têm mais produtos, mas as que ajudam o lojista a tomar melhores decisões.
No fim, a pergunta deixa de ser “o que você vende?” e passa a ser: o quanto você facilita a venda de quem compra de você?
Quem conseguir responder isso com clareza deixa de disputar espaço e passa a ser escolhido.

